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Running VS Science

Um blog científico cheio de curiosidades sobre a corrida, conselhos para melhorar a performance e entrevistas fenomenais a casos reais de pessoas comuns que venceram na corrida.

COVID-19: É verdade que o exercício físico potencia o nosso sistema imunitário?

Nádia Santos, 21.07.20

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O ano de 2020 será para sempre marcado como o ano da re-adaptação. De um momento para o outro, não só assistimos ao cancelamento das competições e dos treinos em grupo, como também precisámos de adaptar os treinos a estes tempos de pandemia. 

Durante o estado de emergência, levantaram-se algumas questões acerca da importância do exercício físico e ainda algumas opiniões contraditórias partilhadas nas redes sociais. Ao longo desses quase dois meses, houveram vários tipos de atletas: os que optaram por manter os seus treinos regulares (embora de forma isolada), os que adaptaram para treinos mais curtos na sua zona de residência, os que adaptaram para treinos em casa e os que não treinaram de todo, com medo de comprometer o sistema imunitário.

Dessa forma, hoje no Running Vs Science, vamos responder a algumas questões relacionadas com o exercício físico e a sua função nas nossas defesas contra agentes invasores (como o exemplo do coronavírus). Ao longo do artigo, discutiremos de que forma o desporto afeta positiva ou negativamente o sistema imune, apenas baseado em artigos científicos e sem nunca, de modo algum, opinar acerca da decisão que cada indivíduo tomou.

Como funciona o sistema imunitáro?

De forma a compreendermos de que forma o exercício físico influencia o sistema imune, necessitamos de primeiramente compreende-lo. De uma forma muito resumida, existem duas respostas imunológicas: a resposta inata e a resposta adaptativa.

A resposta inata inclui as barreiras físicas (como é o exemplo da nossa pele), as barreiras químicas (como é o exemplo das nossas lágrimas) e a participação de células próprias designadas por: macrófagos; eosinófilos, basófilos, monócitos e neutrófilos (grupo particular de Leucócitos/Glóbulos brancos), células dendrídicas, "natural killer cells (NK), mastócitos,  entre outros. É geralmente uma resposta rápida, que nasce connosco sem necessidade de introdução de substâncias ou estruturas exteriores ao organismo, sendo por isso mesmo menos específica.

A resposta adaptativa, envolve umas células muito específicas designadas Linfócitos T e Linfócitos B (que também advêm dos Leucócitos) e seus produtos, citocinas e anticorpos, que são produzidos após um contacto com um agente exterior. Dessa forma, é uma resposta mais lenta, mas bastante mais específica, uma vez que os linfócitos são produzidos em específico para atuar sobre aquele agressor. É geralmente através dos anticorpos que conseguimos perceber se uma pessoa já foi infetada ou não por um determinado agressor (por exemplo, se um indivíduo já tiver sido infetado pelo novo coronavírus, há-de já ter produzido enquanto resposta adaptativa anticorpos específicos para o combater). 

Cada uma destas células e moléculas apresentadas possuem funções muito específicas na resposta imunitária.

Efeito do exercício físico no nosso sistema imunitário

- O que nos oferece a literatura científica?

O impacto do exercício físico no sistema imunitário não é propriamente uma novidade científica. Uma pequena pesquisa na literatura disponível, permite-nos encontrar diversos artigos científicos que discutem esta questão, inclusive reviews com mais de 20 anos. Um dos exemplos, é uma review com data de 1994 escrita por Roy J. Shephard et. al [1], onde os autores fazem uma breve revisão de publicações anteriores para concluírem que o exercício físico moderado tem um efeito positivo no sistema imunitário, ao contrário do que acontece com exercício físico intenso. É se dúvida uma review muito completa, onde são discutidas diversas alterações (que iremos discutir mais à frente).

Sendo um artigo do século passado, seria de esperar que surgissem algumas dúvidas acerca da veracidade deste mesmo, uma vez que a ciência está sempre a evoluir e é necessário um constante update. No entanto, se limitarmos a nossa pesquisa para estudos publicados (ou reviews) pós ano 2000, os resultados continuam a ser bastante motivadores (deixo alguns exemplos na bibliografia para consulta opcional posterior). 

No entanto, como habitual, vamos aqui no blog tentar resumir duma forma acessível a todos, que alterações podem então ocorrer no nosso sistema imunitário devido ao exercício físico. 

- Alterações durante e pós exercício físico 

Como já mencionamos anteriormente, o nosso sistema imunitário é composto por duas respostas, cada uma com as suas células e/ou produtos característicos e é sobre estes que nos vamos incidir. Além disso, o exercício físico aqui mencionado, será dividido em: moderado e intenso. Dessa forma, conseguiremos no fim avaliar em separado as consequências de cada um. 

Na tabela 1, apresentamos um pequeno resumo das alterações ao nível de algumas destas células (há que relembrar que os Leucócitos se dividem em grupos diferentes, em cima mencionados).

Tabela 1 - Alterações ao nível dos Leucócitos, Natural Killers, Monócitos e Linfócitos (alguns exemplos de células do sistema imunitário) com exercício físico moderado e intenso. 

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* Advém de fagocitose, processo pelo qual uma célula usa sua membrana plasmática para englobar partículas grandes, dando origem a um compartimento interno chamado fagossoma (ver figura 1). 

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Fig 1 - Partícula agressora a ser fagocitada por uma célula do sistema imune.

No geral, e muito resumidamente (uma vez que apenas mencionamos algumas das células do sistema imune), podemos concluir que o exercício físico moderado traz consequências positivas às nossas defesas, com o aumento de muitas destas células durante e após o exercício. Isto, significa que, mesmo quando estamos em descanso, o exercício físico continua a ter um impacto positivo . Já o exercício intenso (onde podemos incluir os treinos de endurance para uma maratona, por exemplo) já parece ter efeitos nulos ou contrários. Isto porque, também não podemos esquecer que durante treinos intensos, causamos constantes microlesões nos nossos músculos e inflamações, onde estas células são altamente necessitadas, podendo assim diminuir a sua quantidade pós exercício. 

No entanto, é importante mencionar, que mesmo com um sistema imunitário reforçado com o desporto moderado, não podemos desprezar o distanciamento social, o uso de máscaras, entre todas as outras recomendações da DGS. Protejam-se a vocês e aos outros! 

Fiquem atentos a mais publicações e deixem aqui as vossas opiniões e até sugestões para futuros artigos a serem discutidos aqui no blog :) 

Para quem gostou deste artigo, também aconselho lerem: O papel da corrida na prevenção do cancro

Bibliografia:

[1] R. J. Shephard and P. N. Shek, “Potential impact of physical activity and sport on the immune system - a brief review,” Rev. Environ. Health, vol. 28, no. 4, pp. 247–255, 1994, doi: 10.1515/REVEH.1996.11.3.133.

[2] B. K. Pedersen and L. Hoffman-Goetz, “Exercise and the immune system: Regulation, integration, and adaptation,” Physiol. Rev., vol. 80, no. 3, pp. 1055–1081, 2000, doi: 10.1152/physrev.2000.80.3.1055.

[3] S. Fairey, K. S. Courneya, C. J. Field, and J. R. Mackey, “Physical exercise and immune system function in cancer survivors: A comprehensive review and future directions,” Cancer, vol. 94, no. 2, pp. 539–551, 2002, doi: 10.1002/cncr.10244.

[4] B. K. Pendersen and A. D. Toft, “Effects of exercise on lymphocytes and cytokines,” Br. J. Sports Med., vol. 34, no. 4, pp. 246–251, 2000, doi: 10.1136/bjsm.34.4.246.