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Running VS Science

You're a product of science, you run and running is a gift of science. Um blog científico cheio de curiosidades sobre a corrida, conselhos para melhorar a performance e entrevistas fenomenais a casos reais de pessoas comuns que venceram na corrida.

27
Ago17

As longas distâncias e a osteoartrite

Nádia Santos

osteoartrite.jpg

 

Muitos corredores já foram confrontados com as típicas frases “Não devias correr tanto, faz-te mal aos joelhos”; “Longas distâncias vão-te dar cabo das articulações todas” ou “Quando tiveres a minha idade é que vais ver as porcarias que vais arranjar!”.

 

É verdade que pode irritar, mas a maioria dos corredores o que faz é simplesmente ignorar o assunto... Ignora o assunto porque correr faz bem, ponto final.

Outros por sua vez, ficam completamente apavorados (poucos são) que passam a entrar em pânico em qualquer sinal de alerta.

 

 

O que pretendo com este novo artigo, é dar a conhecer alguns estudos feitos relacionados com esta questão e ainda uma opinião pessoal final. Não pretendo de todo aconselhar ou desaconselhar as longas distâncias (até porque como sabem, eu já fiz uma meia-maratona).

Nunca nos meus artigos sobre os meus primeiros 21km leram qualquer referência ao “faz bem ou faz mal”. Sempre falei sobre como me preparar bem e com o mínimo de risco de lesão, apenas! Mas também nunca disse que estava a fazer mal ao meu corpo.

No fim, pretendo que cada um dê a sua opinião com base nos factos e seria interessante até abrir uma breve discussão sobre o assunto :)

 

Vamos então começar por compreender o que é a osteoartrite.

A osteoartrite, ou artrose, é uma doença das articulações que resulta do desgaste da cartilagem e do osso subjacente. Os sintomas mais comuns são rigidez e dor nas articulações e inicialmente manifestam-se apenas após exercício, passando mais tarde a tornar-se constante. É muito comum em pessoas com excesso de peso, com problemas de comprimento (ancas disniveladas ou perna mais curta que outra, por exemplo) ou com empregos que exigem demasiado das articulações. A idade também é um fator de risco.

 

A questão que se levanta neste novo artigo, é se a corrida, principalmente as longas distâncias, aumentam ou não o risco desta doença (algo muito comentado na população).

 

Vamos começar por falar dum estudo realizado em 2008 por Eliza F. Chakravarty  e seus colaboradores[1] sobre osteoartrite do joelho e corridas de longa distância.

Este estudo consistiu no acompanhamento de 98 indivíduos (45 corredores e 53 não-corredores; considerando mortes e/ou desistências, pois o número inicial era maior) ao longo de cerca de 18 anos (1984-2002). Os indíviduos tinham idade média de 58 anos e a amostra de corredores já continha no seu “currículo” dez anos de experiência em corrida.

Ao longo destes anos, todos os indivíduos foram submetidos a radiografias (no minímo duas) e os resultados foram os seguintes:

Radiografia inicial: 6.7 % dos corredores demonstraram osteoartrite inicial, enquanto que os não-corredores não apresentaram.

Radiografia final: 20% corredores + 32% não-corredores apresentaram a doença; 2.2% + 9.4% não-corredores apresentaram a doença de forma severa.

A análise estatística deste estudo concluiu que, como dá para ver nos resultados, a corrida de longa-distância não apresentou maior risco de osteoartrite, revelando ainda que não-corredores apresentaram piores resultados. Apesar de serem necessários mais estudos para compreender se a corrida de longa distância tem até inclusive um efeito protetor em relação a esta doença, este estudo termina afirmando que “Long-distance running or other routine vigorous activities should not be discouraged among healthy older adults out of concern for progression of knee OA”; isto é, a corrida de longa distância não deve ser desencorajada por receio da progressão desta doença.

 

A minha opinião: No meu ponto de vista este estudo é bastante incompleto. As principais falhas deste estudo, para mim são:

  • Para fins estatísticos confiava mais facilmente numa amostra maior.
  • Deviam ter sido efetuadas relações genéticas para distinguir a maior ou menor probabilidade de progressão da doença (ou um simples historial familiar já ajudava).
  • Conclui-se que longas distâncias não prejudicam... Mas e a nível competitivo? E em atletas que iniciam competição em longas distâncias mais novos? Outras idades e tipos diferentes de “atletas” (de competição ou amadores) deviam ser consideradas!
  • O tipo de treino e alimentação de todos os indivíduos

 

Vamos agora olhar para um estudo mais antigo de 1995. Um estudo realizado por Urho M. Kujala e seus colaboradores[2] e que consistia na comparação de vários desportos no desenvolvimento de osteoartrite no joelho.

Este estudo consistiu na seleção de 117 atletas com idades compreendidas entre 45-68 anos com historial desportivo competitivo. Dos 117, 28 tinham sido atletas de longas distâncias, 31 jogadores de futebol, 29 halterofilistas e 29 atiradores. Neste estudo também foram consideradas antigas lesões (BOM!), assim como as ocupações diárias de cada um dos atletas (BOM DE NOVO!).

No fim do estudo, os cientistas chegaram à conclusão que os corredores de longa distância foram os que apresentaram menor patologia através de radiografias, a seguir aos atiradores, com 14 % de prevalência entre os 28 atletas. Já o halterofilismo e o futebol, foram considerados os desportos com maior risco com uma prevalência de 31 e 29%, respetivamente.

Este estudo também concluiu que o risco aumenta aquando historial de lesões no joelho.

Por fim, o estudo termina dizendo que o futebol acarreta maior risco devido ao facto de acarretar um historial de lesões no joelho bastante grande e o halterofilismo devido à elevada quantidade de massa muscular (provavelmente devido ao alto IMC, que por si só, já é um fator de risco).

 

A minha opinião:

Gostei bastante deste artigo! Considera a longa-distância a um nível competitivo, tem em conta lesões antigas e ainda compara com outros desportos. No entanto, o problema da amostra continua: amostra pequena. Para além disso, gostaria de novamente saber o historial familiar da doença e a alimentação dos atletas. Não ponho em causa o tipo de treinos, uma vez que estamos a falar de ex-profissionais que terão tido um acompanhamento profissional e de excelência (algo que a maioria do corredor amador, não tem!).

 

Existem muitos mais artigos sobre a osteoartrite e a corrida, no entanto, o nosso tempo é escasso. Para os mais curiosos, deixo a referência destes dois artigos e ainda a dica: procurem “osteoarthritis and long distance running” no site google académico :)

No entanto, com base no que li, deixo-vos a minha opinião.

 

Nádia Santos:

“Como não sou médica, não vos posso deixar uma opinião profissional e muito menos algum conselho. No entanto, posso dar-vos uma opinião pessoal.

A corrida de longa distância tem adquirido cada vez mais interesse no corredor amador. A prova disso, são as inscrições para a maratona.

Não existem (que eu tenha lido, atenção!) artigos que revelem que estas distâncias deêm cabo das articulações. No entanto, não nos podemos esquecer do seguinte: os corredores profissionais possuem um acompanhemento de excelência! Possuem treinos qualificados, alimentação adequada... Para além disso, fazem disso a sua profissão! Já nós, os corredores amadores, não temos muitas vezes a sorte de sermos acompanhados por profissionais da corrida... Para além disso, temos cada um de nós a nossa profissão. Muitos de nós, inclusive, profissões de alto risco para com a osteoartrite.

Não defendo o desencorajamento às longas distâncias... Pelo contrário, sempre defendi a luta pelo sonho. A conquista! Mas de todo alguma vez direi que toda a vossa preparação será 100% saudável, pois tal como eu disse, não vivemos só de corrida.

O meu maior conselho para convosco é que se informem. Consultem um médico especialista antes de iniciarem os vossos treinos para a maratona. Conheçam o vosso historial familiar, saibam se são um fator de risco... Se tiverem capacidade financeira (o que não é fácil) procurem um profissional da corrida e um bom nutricionista desportivo... Procurem um bom terapeuta ou massagista!...

Nunca saberemos ao certo, na minha opinião, se somos ou não um fator de risco... Penso que existem milhares de fatores a ter em consideração e dificilmente se chegará a uma conclusão. A longa distância pode não ser um fator de risco na sua generalidade, mas cada indivíduo é diferente... “

 

5329677.jpg

 

E tu? O que pensas sobre este assunto?

 

 

 

[1] Long Distance Running and Knee Osteoarthritis A Prospective Study; Am J Prev Med. 2008 August ; 35(2): 133–138.

[2] KNEE OSTEOARTHRITIS IN FORMER RUNNERS, SOCCER PLAYERS, WEIGHT LIFTERS, AND SHOOTERS; ARTHRITIS & RHEUMATISM; Vol. 38;  Number 4, April 1995, pp 539-546 0 1995, American College of Rheumatology

 

01
Ago17

A Corrida e o Calor

Nádia Santos

 

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Chega o verão, chega a tortura dos corredores.

Quem antes treinava às 9/10h da manhã, em pleno agosto recusa-se a correr depois das 07h30. Correr a meio da tarde é quase suicídio! E provas nesta altura do ano... Só mesmo para os mais fortes! :) 

 

Comecei a interrogar-me acerca desta decadência na performance após a minha prova de 15km da Corrida S. João, onde a temperatura rondou os 30ºC. Nessa mesma prova, corri a um ritmo muito mais baixo do que o habitual (e ía com objetivo de RP), caminhei por 3x e ainda me senti mal na meta precisando de ajuda dos paramédicos. Para além disso, com 24 anos, costumo ter os meus batimentos cardíacos entre os 170 bpm no máximo (mesmo em treinos de series, nunca ultrapassam os 180 bpm) e "parva" fiquei quando o meu sensor de batimento cardíaco nesse dia anunciou uma máxima de 200 bpm!!! PANIQUEI! 

 

Decidi então investigar... :) 

 

Sempre que nos exercitamos, o nosso sistema circulatório precisa de efetuar 3 respostas essenciais:

1) Vasodilatação nos músculos ativos e na pele

2) Vasocontrição nos tecidos não ativos

3) Manutenção da pressão arterial 

 

Uma vez que ocorre a vasocontrição nos tecidos não ativos (como os rins e o estomâgo), juntamente com o aumento do ritmo cardíaco, os nossos músculos em uso possuem agora maior quantidade de sangue a ser-lhe fornecida. São então, 3 componentes que funcionam em sintonia. 

O problema, é que treinar em altas temperaturas desencadeia o desequilíbrio destas 3 componentes... Numa situação de treino/prova em excesso de calor, o nosso sistema cardiovascular não consegue conciliar as necessidades da vasodilatação na pele (para arrefecer o corpo) e ao mesmo tempo ainda manter a pressão arterial e a necessidade muscular de receber mais sangue para a realização do exercício. Quando isto acontece, o sistema cardiovascular por sua vez, acaba por optar na manutenção da pressão arterial, ao invés da vasodilatação na pele e nos músculos. Esta escolha, pode causar a chamada HIPERTERMIA. Esta mesma hipertermia, terá influências ao nível do nosso metabolismo, nomeadamente na acumulação de lactato, responsável pela fadiga. 

 

Para além disso, a falta de compensação na vasodilatação nos músculos ativos, juntamente com a desidatração constante (devido à transpiração), causam um aumento do batimento cardíaco em forma de compensação pela falta de oxigenação muscular. No entanto, esta compensação não é suficiente, comprometendo o consumo de oxigénio. 

 

Dessa forma, o aconselhável é o atleta ter sempre em atenção o seu nível de hidratação. Mais água = maior débito cardíaco, aumento do fluxo cardíaco e diminuição da temperatura interna. No entanto, para evitar o aumento da pressão osmótica que causa a "falta de sede", é aconselhável o uso de isotónicos. Estes possuem sais minerais também importantes no nosso metabolismo e que são perdidos durante a transpiração (ver mais aqui: #Suplementação5 - Eletrólitos).

 

Por fim, sabe-se que atletas que estão mais habituados a treinar em altas temperaturas costumam sofrer menos. No entanto, não quer dizer que também não ressintam os efeitos. Dessa forma, os cuidados a ter são gerais: se pretendes treinar ou competir ao calor, mantém-te sempre hidratado, com os níveis de sais minerais controlados e nada de treinar em jejum! Usa sempre protetor solar e proteção na cabeça! No entanto, se tiveres a oportunidade, opta por horas mais frescas para treinar :) 

 

 

 

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